A Imigração Suíça de 1819 - Origem da Formação Sócio-Econômica da Região Centro Norte Fluminense

O período das guerras napoleônicas deixou, por muitas décadas, seqüelas inimagináveis pelo Imperador Napoleão Bonaparte, não só no continente europeu como também nas Américas, e particularmente no Brasil. A Confederação Helvética ou Suíça, que sofrera mudanças territoriais significativas, passara também por problemas que ocasionou distúrbios afetando sua integridade político-social. Com a chegada do liberalismo econômico e as crises de 1816-1817, agravada pelo insucesso das suas safras agrícolas, a fome havia chegado aos lares suíços. O ápice da crise fora determinado pela explosão do vulcão Tambora, da Ilha de Sumbawa, na Indonésia, que lançou na atmosfera terrestre enorme quantidade de material vulcânico a uma altura de 33 quilômetros. A liberação dos gases bloqueou a maior parte dos raios solares, trazendo conseqüências funestas em todo o mundo, principalmente no hemisfério norte do planeta. O ano de 1816 passou à História como o “Ano sem verão”, “Ano da Pobreza” ou ainda “Eighteenhundred and frozen to death”, significando mais ou menos “mil e oitocentos e morte de frio”. Na Suíça o resultado não poderia ter sido pior, pois apesar da proximidade do verão, a chuva e o frio não dão trégua. A vegetação sofre e as colheitas fracassam, provocando uma imensa ausência dos víveres e uma inflação assustadora, ocasionando a fome e a miséria. Por isso, a Confederação Helvética não tinha mais como alimentar a totalidade de seus cidadãos, e a solução que, à época, pareceu mais adequada, foi permitir movimentos migratórios para o exterior.
Um cidadão da Gruyère, de nome Nicolas-Sébastien Gachet, foi então nomeado pelo Cantão de Fribourg para negociar, com o Príncipe Regente D. João, do Reino do Brasil, Portugal e Algarves, a instalação de uma colônia suíça em território brasileiro. - Tal iniciativa encontrou campo extremamente favorável no seio das autoridades imperiais luso-brasileiras, pois, a exemplo dos demais países europeus, o Reino de Portugal, estrategicamente indefensável a exércitos invasores, também já sofrera a investida de Napoleão Bonaparte. D. João e toda a corte portuguesa, numa retirada estratégica, buscara refúgio na sua colônia americana e, em 1808, se instala no Rio de Janeiro. A cidade cresce e procura se organizar. Precisava-se de mão-de-obra de todo o tipo, profissionais liberais, artesãos e, principalmente, soldados.
Após as negociações de praxe, em 16.05.1818, o Príncipe Regente e futuro Rei D. João VI, por Decreto Real, ratifica e aprova as “CONDIÇÕES SOB AS QUAIS SUA MAJESTADE MUITO-FIEL QUIS CONCEDER AO SENHOR SEBASTIÃO NICOLAO GACHET, AGENTE DO GOVERNO DE FRIBOURG, UM ESTABELECIMENTO PARA UMA COLÔNIA SUÍÇA NOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL”. Nesse documento se estabeleciam, efetivamente, todas as condições e situações de ordem prática com vistas à vinda dos suíços, desde as exigências do lado brasileiro (profissão, religião, etc.) assim como as vantagens e ajudas concedidas. Também ali se definiu o nome da futura Colônia, que passaria a se chamar Nova Friburgo. Na Suíça a notícia repercutiu de forma muito positiva, pois os intermediários do Projeto descreviam o Brasil, em particular a região da Colônia, como um Eldorado. Alistaram-se 830 pessoas de Fribourg, 500 de Berna (incluindo o Jura de Berna), 160 do Valais, 90 do Vaud, 5 de Neuchatel, 3 de Généve, 143 de Aargau, 118 de Solothurn, 140 de Lucerna e 17 do Schwyz, totalizando 2006 colonos1.
Em 14.07.1819 os emigrantes da Suisse Romande (Suíça de expressão francesa) partiram de Estavayer-le-Lac, para uma viagem sem volta, com muitas lágrimas e tristezas em relação aos que ficaram, mas também com muitas esperanças com o novo lar. Os colonos da chamada Suíça Alemã vieram pelo rio Reuss e Rio Aar, em Direção ao Rio Reno, para se juntar em Basiléia a todo o contingente migratório. Problemas relacionados com a organização do Projeto, melhor dizendo, a falta de organização, trouxeram conseqüências trágicas. À espera do embarque para a viagem pelo Oceano Atlântico, os viajantes ficaram acampados nos pântanos de Milj, perto de Dordrecht, na Holanda, onde sofreram toda espécie de desconforto, tais como comida ruim ou deteriorada, que provocou doenças do tipo varíola, tifo, disenteria e malária. Somente em 11 de setembro de 1819 as primeiras 1200 pessoas conseguiram embarcar e, em 10 de outubro do mesmo ano, as 800 restantes. Os colonos são acomodados nos veleiros Daphné, Urania, Deux Catherine, Debby Elisa, Heureux Voyage, Elisabeth-Marie e Camillus. O Trajan transportou apenas as bagagens pesadas dos passageiros.
A ambição do intermediário Gachet, que procurava lucrar de todas as formas possíveis, levou-o a alugar navios em quantidade insuficiente, dando ensejo a que em todos os navios houve superlotação. Thormann, o inspetor nomeado pelo Cantão de Berna, com ironia e pessimismo fúnebres, informava ao seu governo que “... como é de se supor tampouco que todos os colonos embarcados ainda estejam vivos na chegada ao Rio de Janeiro, não há dúvida que estarão melhor acomodados e com mais espaço quando a viagem estiver chegando ao fim...” . Por isso a travessia do oceano foi muito triste, demorada e com muitas mortes.
Na chegada ao Rio de Janeiro, foram recebidos de forma agradável pelo agora Rei D. João VI, recebendo muitos presentes e coisas típicas como pão, vinho, bananas, laranjas. Mas a viagem ainda não acabara. Tinham que percorrer mais de 120 km até a Colônia. A metade do caminho era por via fluvial, até perto da atual cidade de Cachoeiras de Macacú. A partir daí em carroças e lombo de burro. Tomaram contato com a floresta tropical, quente e úmida, com muitos animais diferentes, chuvas abundantes e caminhos estreitos quase intransitáveis. Mas eram bem recebidos pelas populações das fazendas por onde passavam, recebendo presentes, doces, guloseimas em geral, e conheceram a nossa cachaça. Mais adiante, a viagem tornou-se mais difícil, pois os carros não tinham como avançar. As mulheres, crianças e idosos utilizavam-se de mulas, e os homens, a pé.
A triste estatística: mortes ainda na Europa (43); mortes no oceano(311); mortes no Vale do Macacú(35). Das 2006 pessoas que partiram da Suíça, apenas 1617 chegaram a Nova Friburgo, e durante a viagem, nasceram 14 bebes. Mas os problemas ainda não haviam terminado. O Governo imperial preparara apenas 100 casas. Insuficientes, tratou-se de alojar em cada uma, mais de uma família, os órfãos, solteiros, parentes, de modo que cada casa abrigou de 18 a 20 pessoas, dando origem ao que ficou conhecido como a “família artificial”. Depois são transferidos para as terras a eles destinadas, também em número insuficiente, com o mesmo critério de ocupação. Mas o pior foi que a maior parte das terras eram totalmente impróprias para a agricultura. Íngremes, pedregosas, às vezes verdadeiras montanhas de enormes rochas. Algumas eram tão ruins que não era possível sequer plantar uma simples horta.
Para agravar ainda mais a situação, a maior parte da ajuda prometida e estabelecida no documento oficial (CONDIÇÕES...), não foi cumprida. Não lhes foi dada quantidade suficiente das sementes, de gado, etc. Aqueles que não tinham profissões definidas, bem como as viúvas e órfãos, começaram a passar fome e a pedir esmolas. Sensibilizados com a situação de seus patrícios, alguns suíços moradores na cidade do Rio de Janeiro criaram, em 1821, a Sociedade Filantrópica Suíça do Rio de Janeiro, com a finalidade de tentar evitar a miséria dos colonos, dando-lhes assistência médica, educação e ajuda imediata. Tal iniciativa, contudo, esbarrou novamente na viabilização do projeto de ajuda, e diante da carência de racionalidade para a prestação dessa ajuda, ocorre a aceleração do processo de falência da Colônia, e os colonos se dispersaram. Em linhas gerais, somente ficam em Nova Friburgo aqueles que estavam financeiramente muito bem, e muitos outros que, não possuindo tais condições financeiras ou materiais, não tinham como se deslocar. 
 
Os mais corajosos e de alguma posse vão em direção ao Vale do Rio Paraíba, em busca de melhores terras e clima mais quente, se estabelecendo nas cidades de Duas Barras, Cordeiro, Cantagalo, Bom Jardim, São Sebastião do Alto, São Fidelis, Carmo Macuco, Santa Maria Madalena, e outras da região, praticamente até as proximidades da cidade de Campos. Algumas famílias de suíços se tornam, ao longo dos anos, proprietários de terras e muitos deles prósperos fazendeiros, industriais e profissionais liberais de todo o tipo. Embora a região centro-norte do Estado do Rio de Janeiro ainda seja o reduto da Colônia Suíça, hoje seus descendentes estão espalhados por toda a parte, tendo participado ativamente do desenvolvimento e crescimento do país.

Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat
Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat – Nascido em Duas Barras(RJ), é descendentes das famílias suíças Wermelinger-Eggli, Monnerat-Koller, Borer-Wehrli e Stutz-Huber. Economista aposentado do Banco Central do Brasil, foi diretor de empresas governamentais brasileiras no exterior. É membro da ACADEMIA FRIBOURGUENSE DE LETRAS – AFL, da SOCIÉTÉ FRIBOURGEOISE DES ÉCRIVAINS – SFE, (de Fribourg, Suíça), da SOCIÉTÉ D’HISTOIRE DU CANTON DE FRIBOURG (Suíça), membro do CBG-COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA, e articulista eventual do jornal eletrônico SWISSINFO, do Governo Federal Suíço, editado em 10 idiomas.
1 Por muitos anos, prevaleceu o número de 2006 pessoas como aquele mais próximo da realidade, até mesmo pelas dificuldades de mensurar, precisamente o contingente migratório (inscrições de última hora, desistências, substituições por mortes ou exclusão, etc). Atualmente, com base em trabalhos mais recentes, estima-se que esse número está próximo de 2.080 migrantes, incluindo algumas cidadãos de outras nacionalidades que se juntaram ao grupo, ao longo do percurso, ainda na Europa.

Um comentário:

  1. Muito bom. Gostaria de entrar em contato com o autor. Minha bisavo materna era origiaria de Colônia, Sao Fidélis e chamava-se Schimit ( com essa ou outra grafia).
    Obrigada

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