Resultado do 4º Concurso Literário Nacional Julio Salusse


A Academia Friburguense de Letras apresenta os vencedores do 4º Concurso Literário Nacional Julio Salusse, que, neste ano, teve a participação de 240 candidatos, de 22 Estados Brasileiros:


4º CONCURSO LITERÁRIO NACIONAL JULIO SALUSSE

R e s u l t a d o    F i n a l

P O E S I A
Classificação
Nome
Cidade
Est.

1º Lugar

2º Lugar

3º Lugar

Dilson Solidade Lima

Arnon Segal Hochman

Paulo Cesar Tórtora

Feira de Santana

Rio de Janeiro

Rio de Janeiro

BA

RJ

RJ

P R O S A

1º Lugar
2º Lugar
3º Lugar

Arnon Segal Hochman
Rômulo César L. R. de Melo
Jonas Lemes Bertoldo Scherer

Rio de Janeiro
Recife
São Leopoldo

RJ
PE
RS

MENÇÃO HONROSA

Poesia
Prosa
Prosa

Genildo Firmino Santana
Astier Basílio da Silva Lima
Lohan Lage Pignone

Tabira
Campina Grande
Nova Friburgo

PE
PB
RJ





A premiação acontecerá em Sessão Solene da AFL,  no plenário da Câmara Municipal de Nova Friburgo, dia 8 de dezembro, às 19h,quando os vencedores receberão o troféu e o certificado.

A Câmara Municipal de Nova Friburgo fica na Rua Farinha Filho, nº 50, no Centro.

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Ensaio sobre o tempo


A vida é breve. A vida é uma prece murmurada, na calada da noite, interrompida subitamente pelo sono, à nossa revelia; é um dia de sol, de céu azul e límpido, de brisa fresca, de pássaros gorjeando em rasantes. Sem que percebamos, vem logo a noite e o frio, a escuridão. Talvez a vida seja um soneto: belo, curto, emocionante. E não há nada que possamos fazer a fim de deter o sono, a noite… o fim do poema. Só nos resta orar, recitar, viver. A vida é breve, é o que sei. É apenas o que sei, é tudo o que eu sei.

E o que é o tempo?

Na mitologia grega, Cronos é o mais jovem dos titãs, filho de Urano, o céu estrelado, e Gaia, a terra. Rei dos titãs, e grande deus do tempo, é o regente dos destinos e que a tudo devora.

Diz-se que o tempo é invenção do homem – e vá lá, talvez o seja – mas sendo invenção do homem, não deveríamos ter o poder de controlá-lo? Pois os gregos já alertavam sobre Cronos, o inexpugnável e cruel. O tempo é cruel, mas somente em determinado período da vida é que vamos perceber isso. Quando garotos, temos todo o tempo mundo, mas à medida que a maturidade vem, os compromissos, o trabalho, as responsabilidades, tudo isso faz parecer o tempo cada vez mais escasso, ele escorre pelas mãos (mesmo sem se sentir).

Lembro-me de quando criança caminhar com meu pai nos fins de semana pelo bairro. E a gente seguia cumprimentando seus amigos e eu olhava para ele, e ele me parecia tão grande, tão firme, tão cheio de vigor, que eu me sentia seguro. Eu não precisava temer nada! E antes de sair, despedia-me de minha mãe, tão ativa, que me preparava e me dava uma série de recomendações e ela sempre me pareceu tão convicta que eu não precisava me preocupar, tudo daria certo. Eu ainda recebo recomendações de minha mãe e meu pai ainda me conduz – e será sempre assim – entretanto, já observo os cabelos em tons de prata, a pele perdendo o viço, os olhos... e a fragilidade. O tempo passa (e passa muito rápido).

A sensação de impotência diante das coisas e do tempo nos proporciona certa angústia, embora não tenha sido sempre assim. Eu nunca me importei com a fragilidade e brevidade da vida (talvez não dessa forma), contudo, hoje me reconheço em meus pais na relação com meus filhos. Somos o referencial deles: grandes, firmes, cheios de vigor, convictos... Mas um dia eles também observarão nossos cabelos brancos – e eu torço para que seja realmente assim – e talvez eles sintam no peito uma pontinha de medo de nos perder, assim como eu, minha esposa, e você, caro leitor.

Como não há o que fazer, o que nos cabe é valorizar cada momento, cada minuto de nossas horas e as pessoas que fazem parte delas. Eu lhes asseguro que cada momento é único, sem reprise ou replay, e eu poderia muito bem colocá-los enfileirados numa estante com uma plaquinha dourada em baixo para, orgulhoso, mostrar a uma visita. Todos eles, bons ou ruins. A vida é breve e não tem reprise ou replay; o tempo passa (e passa cada vez rápido) e seria muito menos doloroso se vivêssemos conscientes disso.

Os homens escrevem livros, constroem grandes muros, erigem obeliscos e colossos para, numa tentativa desesperada, registrar sua passagem pelo mundo, pela vida e pelo tempo. Mas quando tudo acabar, quando todos se forem, restará apenas o tempo, este sim, eterno. Inexpugnável e cruel, solitário, gordo e tirano, o único sobrevivente de um universo inteiro.

 

George dos Santos Pacheco

Cadeira nº 38 - Patronímica: Sylvio Romero.
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Momentos de glória


Vocês podem não acreditar, mas certa vez toquei o piano 
com o grande Miguel Proença

O que conta são os momentos de glória, é ou não é? Não fosse eu um sujeito modesto, sairia por aí narrando uns casos. Por exemplo: certa madrugada uma voz melosa telefona para a minha casa e começa a elogiar meu desempenho na noite anterior. Eu já estava me sentindo o verdadeiro Daniel Craig, ou quem seja o garanhão do momento em Hollywood, quando acabei de acordar e me dei conta de que a única pessoa que poderia opinar sobre o meu desempenho no assunto estava dormindo do outro lado da cama. Já ia informar à Voz Melosa que ela havia ligado para o número errado, quando ela suspirou apaixonada: “Ah, Oliveira, você é o máximo!” Eu nunca usei pseudônimos e, se usasse, não creio que escolhesse Oliveira. Pseudônimo tem que ser marcante, tem que dizer de cara a que veio quem o adotou. Contaram-me que conhecido cidadão de nossa cidade (a quem ficticiamente chamaremos aqui de Romualdo, com perdão dos Romualdos da vida real) viaja com frequência ao Rio de Janeiro e, chegando ao alto da serra, exclama, enfim liberto: “Até aqui sou Romualdo. Daqui pra frente eu sou Dolores!”

Mas eu ia contar as minhas glórias e acabei falando de um fracasso. Porque, é claro, não era a mim que Voz Melosa estava elogiando. Voltei a dormir, resmungando contra as pessoas que falam ao telefone sem saber quem está do outro lado da linha, e maldizendo as mulheres, que fazem a gente se imaginar um imbatível Brad Pitt e depois deixam a gente se sentindo um Oliveira qualquer.

Mas nem tudo são fracassos. Já lhes contei como conheci Leonel Brizola, honra acrescida do fato de a iniciativa do nosso encontro ter partido dele, e não de mim. Ora, estava eu no meu cantinho quando o então candidato a governador chegou para um comício. De repente, o homem se viu cercado por um bando de bêbados. Brizola era aguardado para um almoço, e é possível que os bêbados, mais do que votar nele, estivessem querendo almoçar de graça. Nunca é bom confiar nessa gente, não tem nada mais falso no mundo do que eleitor. Depois que inventaram esse negócio de voto secreto, então, ficou um horror. O cidadão se candidata a vereador, tem a promessa de dois, três mil votos e na hora em que a urna é aberta, o que aparece? Oitenta, cem votinhos. O voto secreto é a maior falsidade que existe e é por isso que em muitas cidades do Brasil, até pouco tempo atrás, o candidato mais poderoso mandava encher as urnas na véspera das eleições, evitando assim que o povo fizesse a besteira de votar em algum de seus adversários.

Creio que Brizola ficou assustado com o alto teor alcoólico das conversas que puxaram com ele. Talvez temesse um atentado terrorista, porque, se alguém acendesse um fósforo nas proximidades, não havia como evitar uma explosão, com mortos e feridos. Então, olhando através das ondas etílicas que o envolviam, o candidato viu um sujeito que, embora insignificante, parecia estar sóbrio. E foi assim que ele partiu em minha direção e veio puxar conversa comigo.
E agora, estão convencidos da minha importância? Pois conto-lhes mais. Vocês podem não acreditar, mas certa vez toquei o piano com o grande Miguel Proença. Ah! ah!, por essa vocês não esperavam, heim?  Não duvido de que haja algum leitor morrendo de tanta inveja que nem consiga mais continuar a leitura. Pois bem, vou lhes explicar tudo direitinho. Passei à tarde pelo Centro de Arte a fim de apanhar ingressos para o recital que o Miguel (já posso tratá-lo com essa intimidade) daria à noite. Nesse momento, o grande pianista estava lá dentro, testando o piano. Tendo concluído que havia nele algum problema, resolveu trocá-lo por outro, que estava no corredor. Modestamente, começou ele mesmo a arrastar o instrumento, e vieram me pedir ajuda. Em muitas coisas na vida me considero um carregador de piano, mas a verdade é que detesto fazer força e carregar peso. Aquele, no entanto, era um momento de glória, que eu não podia perder. Consciente da grandeza do instante, juntei-me ao renomado concertista e ajudei-o a tocar o piano para fora do palco.

Foi um dueto inesquecível para mim, mas o Proença, ingrato, é bem capaz de já ter esquecido o quanto eu contribuí para os calorosos aplausos que, à noite, ele recebeu da plateia.

Robério José Canto
Cadeira no. 4 - Patronímica de Alphonsus de Guimarães.
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Isso é pra você aprender!


Confesso que não sou autor dos episódios a seguir. A verdade, contudo, é que acredito que muitas histórias que circulam oralmente na cultura popular precisam – e merecem – ser registradas para que não se percam e que nos sirvam de lição. Afinal, alguém discorda de que toda história tem algo para contar e nós, muito que aprender?

Diz que dois garotos estavam negociando um burro com o dono de um sítio, com a intenção de rifá-lo; cerca de duzentos bilhetes já estavam todos vendidos (a dois reais cada) e o sorteio seria no dia seguinte. Dava para pagar o produto e ainda sobrava uma graninha boa. O animal estava muito bem cuidado: os pelos acinzentados, brilhantes, eram escovados todos os dias e o couro não tinha um machucado. Os dentes de Rambo – nome pelo qual o bicho atendia – também eram impecáveis e, assim, ninguém poderia por defeito nele.

Acontece que, apesar de todo o cuidado que Seu Zé Maria tinha, infelizmente, o bicho amanheceu morto. Cabisbaixo e tristonho, o dono teve que explicar aos garotos que não poderia vendê-lo.

 – Meninos, infelizmente, não posso vender mais o burro para vocês. O Rambo morreu essa manhã.

– Como assim morreu, Seu Zé? – perguntaram quase em uníssono.

– Não sei dizer, crianças. Apenas amanheceu morto. – respondeu, ao que os meninos pediram licença e se afastaram um pouco. Trocaram meia dúzia de palavras e retornaram.

– Então, a gente vai querer ele assim mesmo.

– Como assim mesmo? Não ouviram? O Rambo morreu!

– A gente o compra assim mesmo! – insistiram. Seu Zé não entendeu nada, mas decidiu entregar o bicho.

– Meninos, eu não estou entendendo nada, mas vocês podem ficar com ele. Na verdade, vocês vão me fazer um favor levando ele embora. E é claro, não vou cobra-lhes nada.

Os garotos agradeceram e foram embora. Dias depois, o velho encontrou-os no centro da vila, felizes e sorridentes e a curiosidade apertou. Aproximou-se e sem rodeios, perguntou pelo finado bicho de estimação.

– Ora, a gente o rifou. – responderam sorrindo.

– Como o rifaram, meus filhos? O bicho não estava morto? Ninguém reclamou? – perguntou estupefato.

– Apenas o ganhador!

– E o que vocês fizeram?

– Devolvemos o dinheiro para ele!

A outra história conta que um taxista, já no final do expediente, passou em frente a uma famosa clínica psiquiátrica da cidade. No ponto de ônibus, três maluquinhos estavam esperando a condução, e o motorista viu ali uma oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Parou o carro e esticando o corpo pelo banco do carona, chamou os rapazes.

– Ei, amigos! Vocês estão indo para onde?

– Eu estou indo para a Ponte da Saudade! – disse um.

– Eu vou para o Centro! – disse o outro.

– Eu vou para Olaria! – disse o último.

– Entrem aí, faço um preço bem camarada. – afirmou sorridente e os maluquinhos embarcaram.

Depois de todos acomodados, o taxista não engatou a marcha e acelerou fortemente o carro, no mesmo lugar, por um breve período e gritou “Ponte de Saudade”! O maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Em seguida, acelerou o carro com vigor, virou o volante para cá e para lá e gritou “Centro”! O outro maluco pagou, agradeceu e desembarcou.

Por último, acelerou novamente o veículo, desta vez com mais empenho ainda, e anunciou que haviam chegado ao último bairro. O rapaz pagou e desceu do carro sem dizer nada, fez a volta e parou bem ao lado do motorista, que tinha a janela aberta e deu um tremendo tapa em seu rosto. O taxista fechou os olhos cheios de lágrimas e pensou: “Caramba, fui descoberto...”. E pra não deixar barato, o último maluquinho deu-lhe um pito:

– Isso é pra você aprender a não andar correndo tanto assim!

***

Moral das histórias: Há sempre alguém querendo se dar bem prejudicando os outros; em nossa sociedade, só é respondido quem reclama (então reclamemos!); e por último e não menos importante, quem é esperto demais e vive enganando os outros, quando menos esperar vai ser punido. E pode ser que nem assim aprenda!


 

George dos Santos Pacheco

Cadeira nº 38 - Patronímica: Sylvio Romero.
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Ensaio sobre a juventude


Sorte a minha ter ingressado em uma das instituições mais tradicionais de Nova Friburgo. Em 2017, a Academia Friburguense de Letras completa 70 anos de fomento à Literatura, promovendo e difundindo a arte e cultura nestas terras altas.

Tomemos aqui o conceito etimológico do termo "tradicional". Tradição vem do latim traditio, tradere, que significa "entregar", "passar adiante", ou seja, aquilo que é transmitido de geração em geração. Na academia, as idades variam na faixa dos 30 aos 80 anos, assim, são diversas gerações que convivem harmoniosamente, trocando experiências de vida e literárias, e o enriquecimento e amadurecimento pessoal é preciosíssimo.

Em uma iniciativa de vanguarda, a Casa de Salusse alterou seu estatuto e criou o Anexo Jovem, um espaço com, 15 cadeiras que homenageia nas patronímicas antigos membros do sodalício, destinado a jovens entre 16 e 29 anos. Em consequência da abertura de vagas, houve a posse coletiva das cinco primeiras cadeiras pelos escritores Brenno Castro, Thales Amaral, Ania Gevezier, Isabelle Sarruf e Rachel Ventura.

Foi uma iniciativa magnífica da AFL e dá orgulho saber que fiz parte disso. E esse orgulho precisa transbordar nas palavras de um ensaio. Quantas trocas de experiências serão possíveis? Quanto poderemos legar, quanto poderemos aprender!

Assim, como é de praxe na instituição, cada novo acadêmico é saudado por outro mais antigo durante a cerimônia, e eu fui o padrinho do jovem Thales, de apenas 20 anos e que publicou seu primeiro livro aos 16. Também eu, aos 16, rascunhava histórias em cadernos, mas desisti da literatura por haver considerado que sua produção estava atribuída aos intelectuais de renome, muito distantes da minha realidade de aluno de escola pública. Só retomei o antigo sonho aos 25, quando mudei a forma de pensamento e a postura diante do tema. Ingressei na academia aos 34; eles, entre 17 e vinte poucos anos (como o Fábio Jr.). Será que em minha adolescência eu teria desistido se tivesse tido o apoio que precisava? Possivelmente não, assim como eles não desistirão, e podem ir muito mais além.

Que mais iniciativas como esta surjam em outras academias, em outras instituições dedicadas a arte e cultura. Que cada vez mais jovens se interessem não apenas pela leitura, mas pela produção literária e que isso possa estimular o pensamento crítico e alimentar sonhos. Porque todos temos sonhos. Porque todos somos jovens e, seja aos 17 ou 80 anos, temos muito o que aprender e ensinar nessa vida; mais a aprender do que ensinar, inclusive. Aliás, na vida, tudo tem seu preço, seu valor. E só queremos dessa vida é ser feliz.

George dos Santos Pacheco

Cadeira nº 38 - Patronímica: Sylvio Romero.
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